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terça-feira, 31 de outubro de 2017

OS 500 ANOS DA REFORMA PROTESTANTE

Monumento em homenagem a Reforma, em Genebra, Suíça. Reparem que não possui as imagens de Lutero ou Zwinglio. Da esquerda para a direita: Guilherme Farel, John Calvino, Theodore de Beze e John Knox.

Hoje fazem 500 anos em que um monge alemão chamado Martinho Lutero pregou suas 95 teses nas portas da Catedral de Wittenberg, e deu início ao movimento da Reforma Protestante. Um movimento que se espalharia pelo mundo. Começaria com reuniões em templos católicos, mas nem sempre era assim. Ao contrário da Igreja Romana, os templos não têm essa grande importância para os protestantes. Só têm importância durante o culto, e isso para aqueles que o possuem. Os protestantes receberam esse nome devido ao documento de protesto da Dieta Imperial de Speyer, em 1529, que pretendia uma unificação religiosa na Europa. Essa partição gerou um movimento que logo rivalizaria com os católicos e ortodoxos. Mais tarde, o protestantismo se tornaria um dos maiores movimentos religiosos da História. Pregadores, como Billy Graham ou Benny Hinn, fizeram tremer multidões não só na América Anglo-Saxônica em geral, mas também na América latina.

Mas o protestantismo começou mais simples. Começou no Renascimento europeu, com escritores como Lorenzo Valla ou Manuel Chrisoloras, que mudaram para sempre o modo como se entenderia as Sagradas Escrituras. Para muitos católicos isso foi apostasia. Para nós, libertação. Os padres do século XV eram, em sua maior parte, ignorantes. Não davam a pregação da biblia que o povo necessitava. Superstições apareciam em várias partes da Europa. Em 1484 o papa Inocencio VIII dava ao mundo aquilo que em breve seria conhecido como Maleus Maleficarum(martelo das bruxas), onde se ensinava a reconhecer os sinais de bruxaria. Temia-se bruxas em escalas histéricas. O diabo era mais citado que o próprio Deus. Antes da Reforma houve uns pré-reformadores como John Wicliff ou John Huss, onde ambos prepararam um caminho bem excelente para o que viria a ser. Mas faltava uma coisa para a dose desse sucesso: A invenção da Imprensa. Esta caberia ao alemão Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutemberg, ou simplesmente Johannes Gutemberg, que inventou a imprensa em meados do século XV. Essa invenção fez toda diferença, pois permitiu a multiplicação de bíblias escritas por toda Europa, abaixando o seu preço, e espalhando pelo continente.

Tudo começou no dia 31 de outubro de 1517, com o Monge Agostiniano Martinho Lutero pregando suas 95 teses contra a venda de indulgências na porta da catedral de Wittenberg. Lutero não era contra as indulgências, mas contra a venda delas. É óbvio que não se podia vender perdão. Após o luteranismo converter vários príncipes alemães, parece que deu uma força aos reinos do norte europeu, como Suécia, Noruega e Dinamarca. Isso fora o ducado de Brandemburgo. O jeito como se espalhava preocupava a Europa. No sul da Alemanha atual(embora esse país não existisse na época) começou, simultaneamente a Lutero, a surgir outro reformador: Ulrico Zwinglio! Um padre da Suíça alemã que vinha pregando em várias paróquias naquela região. Dizem que Zwinglio chegou a decorar todas as cartas de Paulo em grego! Não era para menos. Estudioso, tal como Lutero, começou uma grande reforma suíça. Em breve surgiria um grande desafio para Zwinglio: Os Anabatistas.

Os anabatistas eram cristãos anarquistas, que abriram mão de templos, sacerdotes e rituais, e faziam seus cultos na clandestinidade, nas florestas da Baviera. Um deles, Thomas Müntzer, começou a Guerra dos Camponeses,ao qual Lutero chamou de 'Revolta Maldita'. Guiou os camponeses sob a bandeira da revolta imperial. E essa bandeira era semelhante à bandeira LGBT de hoje,sendo que só tinha 5 cores. Era caçado,tanto por católicos como por luteranos. Mas depois, considerando todo patriotismo como maldito,separou-se dos luteranos. Reunia-se com seus discípulos na floresta negra,ao sul da Saxônia.Os revoltosos baseavam-se na Bíblia para afirmar que os camponeses nasceram livres, e reivindicavam a livre escolha dos líderes espirituais, a abolição da servidão, a diminuição dos impostos sobre a terra, e a liberdade para caçar nas florestas pertencentes à nobreza. Lutero condenou o movimento dos camponeses, apoiando os príncipes e nobres. Houve uma batalha dos senhores feudais contra os anabatistas. A batalha foi em Frankenhausen,onde os anabatistas foram derrotados,e Muntzer foi decapitado. Para entendermos a História, por que eram caçados? No século XVI não havia censos de IBGE como há hoje. Então, a única maneira de contar a população era pelos batismos. Dessa maneira,podia-se contar tanto os impostos a cobrar, como camponeses prontos a lutar pra uma guerra. Acontece que Muntzer pregava batismos somente em adultos. E isso complicou o cenário. O exército de Suleimã,o turco, estava invadindo a Europa. E o imperador precisava de soldados(e dinheiro)para a guerra. Martinho Lutero chamava os turcos de 'exército do anticristo',e dizia que os anabatistas eram culpados pelo fracasso das tropas imperiais. Muitos anabatistas fugiram para o leste da Hungria após a morte de Muntzer. Foram bem tratados pelos príncipes islâmicos vassalos de Suleimã. Tanto que na invasão à Viena por parte dos turcos,em 1683, o chefe da invasão era um príncipe protestante húngaro. Os anabatistas logo foram acusados de conivência com os islâmicos. As interpretações dos fatos eram confusas,pois a maioria do povo era analfabeto. Zwinglio chamava os anabatistas de 'cães da selva'. Ele fez questão de dar um presente todo especial a Felix Manz, primeiro mártir anabatista de fato. Disse que daria a ele,e muitos dos seus, um terceiro batismo. E isso o fez afogando-os no rio Elba. Felix foi afogado no rio Limmat. Hoje há uma placa comemorativa em Zurique. O cronista alemão Ekkehard Krajewski escreve sua biografia.

Enquanto isso na França nascia um novo movimento: O calvinismo! Divulgado por um reformador chamado João Calvino, que era uma espécie de advogado astuto, misturado a um oportunismo perspicaz que soube aproveitar o momento. Este foi único dos primeiros reformadores que não era clérico. E foi o único cujo movimento teve alcances mundiais. Fez sua reforma, incluindo sua obra famosa 'Principios da Religião Cristã'. Suas ideias, surgidas na França, tiveram que ser pregadas em Genebra, na Suíça, por perseguição aos seus discipulos em território francês. Os calvinistas franceses foram conhecidos como 'huguenotes', muito provavelmente por se reunirem em um dos castelos do antigo rei medieval Hugo Capeto. Se reuniam na clandestinidade. Mas em breve aumentaram em número(e armas), e preocuparam os católicos da França. Seu líder nessa época era o almirante francês Gaspar de Coligny, que aconselhava ao rei Carlos IX, para desespero da rainha mãe, Catarina de Médici. Em breve se aliariam com o chefe da liga católica na França, o Duque Henrique de Guise. Dessa aliança resultaria o maior massacre protestante da História: O massacre de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572. Até hoje, na capela Sistina, na 'Sala Régia', existem as pinturas de Giorgio Vasari, que mostram os triunfos da Igreja Romana, onde quatro delas relatam o massacre de São Bartolomeu, onde cerca de 20.000 huguenotes foram mortos numa noite. O papa Gregório XIII ordenou a pertpetuação da memória desse acontecimento, cujo aniversário arrancou lágrimas do velho Voltaire. Em todos os lugares do mundo, a residência do sumo pontífcie é o único em que o assassinato é comemorado.

Mas o castigo viria, literalmente, a cavalo. Carlos IX, o rei da França desse massacre morreu de forma agonizante. O duque de Guise seria assassinado. O seu irmão Henrique III sucedeu-o, pois ele não tinha filhos, mas também foi assassinado. Quem sucedeu o trono foi o genro de Catarina de Médici, cunhado do rei falecido, Henrique IV, o rei de Navarra. A partir daí os huguenotes cresceriam a tal ponto de fortalecer os protestantes na Holanda, Suíça e Brandemburgo. No alvorecer do século XVII nasceria o último conflito religioso da Europa. A Guerra dos Trinta Anos(1618-1648) acabaria para sempre com as chances de unificação religiosa por Roma. Em principio a liga protestante estava vencendo, com a ajuda do rei da Suécia, Gustavo Adolfo. Mas o rei do norte viria a se tornar um vencedor de batalhas, e a liga católica, ao comando do general Wallenstein, conseguiu estender a luta até a batalha de Lützen, em 1632, com a vitória sueca e morte do rei da Suécia. Esse general em breve trairia o imperador em prol da França, e seria assassinado. A partir daí haveria perdas do lado protestante, até a França entrar na guerra. O ministro da França, cardeal Richelileu, era um honmem mais próximo da coroa da França que do papa. Sendo assim, se aliou com a liga protestante. Essa aliança deu a vitória protestante na guerra. O tratado de Westfália, em 1648, foi condenado pelo papa por prolongar a divisão da cristandade, e reconhecer as alas protestantes. Mas não tinha jeito. O futuro não mais reservaria a religião como motivo de conflitos no Ocidente. Um príncipe poderia mudar de religião sem que seus súditos fossem obigados a fazê-lo. Nascia o berço do estado do laico. Para muitos, seria o embrião do ateísmo. Para outros, o nascimento da liberdade. Aos poucos a religião deixou de ser decisiva nas relações internacionais na Europa. Por isso que se deve enfatizar que todo protestante que é contra o estado laico, com tudo de bom ou ruim que isso acarrete, apenas cospe no prato em que comeu. A crença protestante deu origem a pensamentos nunca vistos. Apesar de seu fundamentalismo(foi no protestantismo que esse termo surgiu)do inicio do século XX, em reação ao darwinismo, é preciso reconhecer que foi no protestantismo que o darwinismo nasceu. Charles Darwin era protestante, não ateu. Era ministro anglicano também. Morreu agnóstico, mas ateu nunca foi. Tanto o fundamentalismo religioso, como o evolucionismo, são filhotes da Reforma Protestante. Todos esses movimentos são filhotes da liberdade. Feliz 500 anos a todos os protestantes que assim comemoram!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

NAS BATALHAS DO PRATA NASCERIA UM PAÍS

"Como aurora precursora

Do farol da divindade

Foi o vinte de setembro

O precursor da liberdade."

Hino do Rio Grande do Sul

Que acontecimento foi este, que os versos iniciais do hino rio-grandense evocam de forma tão heróica? Uma guerra contra o império, que proclamou a república do sul do país. Foram 10 anos de conflito, de 1835 a 1845. Mas suas origens remontam aos primeiros anos do século XIX, com conflitos entre a elite gaúcha e a corte no Rio de Janeiro.

Há exatamente 182 anos atrás, o Brasil sofreria uma tentativa de rachadura no extremo sul do país. Começa a Revolução Farroupilha, em 20 de setembro, quando tropas rebeldes, comandadas por Onofre Pires da Silveira Canto e José Gomes Vasconcelos Jardim, tomam a cidade de Porto Alegre. O governo brasileiro, devido a menoridade de D. Pedro II, estava no período de regência. E várias revoluções explodiram pelo país. E todas foram controladas, com exceção do Rio Grande do Sul. Esta rendição dos gaúchos teve que ser negociada. Os fazendeiros gaúchos reclamam da ausência de ajuda em relação às causas da fronteira, e também de nomear seus próprios governadores, e não 'gente do Rio de Janeiro'.

O comércio de charque ainda viria a causar grandes danos, pois ladrões uruguaios atravessavam a fronteira com frequência. Poucos sabem, mas a origem da cultura de charque no Brasil não veio do sul, mas do Nordeste brasileiro. Nas suas origens verdadeiras, vem dos Andes. Vem das montanhas do Peru, Equador e Colômbia. Esse comércio, e a política brutal de seus fazendeiros, é que deixava o sul uma região tão instável.

Com respeito aos líderes, houve muitos. Desde o principal, Bento Gonçalves, até José Gomes Vasconcelos Jardim, o general Antonio de Sousa Neto, Onofre Pires da Silveira Canto, Bento Manuel Riberio e até estrangeiros como Tito Livio Zambeccari, Giuseppe e Anita Garibaldi. Bento Gonçalves fugiu a nado de sua prisão na Bahia, em 10 de setembro de 1837, há exatos 180 anos atrás. Não poderiam deter alguém com tantos contatos como ele. E detalhe, ele era ajudado pela maçonaria no Brasil. Muito mais dinheiro estava envolvido na causa dos farrapos.

O término da Revolução não envolveu exatamente uma rendição, mas um acordo. O general Luis Alves de Lima e Silva, popular Duque de Caxias, conseguiu a paz com os farrapos, através da paz do Ponche Verde, em 1845. Na época ele ainda não seria o herói da Guerra do Paraguai(1865-1870). Mas foi único brasileiro a receber a honraria de 'Duque'.

A longa duração da guerra contra o Império mostrava a bravura local. A paz honrosa reconhecia o valor dos gaúchos,pois os farrapos nunca foram vencidos no campo de batalha. Além disso, ao proclamarem a República sem se separar do Brasil, os gaúchos provaram que eram brasileiros por vontade própria. Terminados os conflitos na Bacia do Prata e à margens dos rios Uruguai e Pelotas, a região se acalmou, ao menos por enquanto. em breve seria travado nessa região aquilo que seria o maior conflito da América do Sul: A Guerra do Paraguai(1865-1870).

Este é o quadro 'Carga de Cavalaria', em exposição no museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O nome do museu é uma homenagem a Júlio Prates de Castilhos, governador do Rio Grande do Sul no final do século XIX. Foi eleito duas vezes, e é o principal autor da Constituição Estadual de 1891.

domingo, 10 de setembro de 2017

Indianos e alemães são parentes?

Nas análises linguísticas, bíblicas e arqueológicas, tudo leva a crer que sim. Existe um tronco de civilização, chamado de indo-europeu, que originou-se na Ásia Central, e distribuiu-se do vale do Indo ao vale do Reno. Hoje já se investiga a base desse tronco. Seriam os Kurgans! Eles viriam da Ásia central, dando origem a vários ramos: Iraniano(Medos, Persas e algumas etnias afegãs), Hindu(indianos e bengalis), Germânico(anglos, saxões, jutos, vikings, visigodos e ostrogodos), Eslavo(russos, poloneses e búlgaros), Itálico(romanos, etruscos e latinos) e nas ilhas do mar Egeu. Ainda tem os celtas, embora esse ramo seja múltiplo, e siga o mesmo tronco dos persas e hititas.Tem muito mais, porém coloquei-os de forma resumida.

Para quem gosta da análise bíblica, em seus ramos genealógicos, temos os filhos de Jafé, que eram filhos de Noé: Maday(pai dos medos e persas)e Magogue(pai dos russos e alemães). A descrição disso encontra-se em Gn 10:1,2. Embora todo trato com genealogias bíblicas devemos ter cuidado, para evitar absurdos fanáticos.

Nos exames de ossadas antigas, classifica-se os tipos humanos em dolicocéfalos(crânios ovais) ou braquicéfalos(crânios 'quadrados'). Os indo-europeus estão enquadrados nos primeiros. Sejam estes indianos, alemães, afegãos ou russos. Se prestarmos atenção, e ignorarmos a cor da pele, veremos a ossada semelhante entre esses povos.

A parte linguística é a mais interessante. O linguista inglês William Jones descobriu a afinidade entre o grego, o latim e o sânscrito. A antropóloga lituana Marjia Gimbutas também confirma esses dados, que montou, baseada em dados arqueológicos, as origens dos indo-europeus na Ucrânia atual, entre o Cáucaso e o Mar Negro. Ainda hoje, essas são as ideias mais aceitas.

Até a metade do III milênio antes de Cristo, a civilização Harappa dominava os vales do Indo, e do Ganges. Após a segunda metade do II milênio a.C. povos belicosos, vindos do planalto iraniano, invadiram a Índia. Colocaram um sistemas de castas, e mudaram a cultura do lugar para sempre. Eram os arianos. Estes povos indo-europeus são os pais da Índia atual. Por essa causa que a suástica nazista tem sua vertente inversa no peito de uma deusa hindu. A suástica alemã é a hindu girada ao contrário. Muitas especulações místicas são feitas em prol disso, mas aqui só interessa a História. E esta uniu os povos hindus e germânicos para sempre.

Recomendações bibliográficas:

www.jies.org

Página do 'The Journal of Indo-European Studies'. Tem textos fantásticos, porém precisa pagar para se ter acesso.

www.continuitas.com

É um site oficial daqueles que se contrapõe a muitas ideias aceitas na atualidade.

domingo, 3 de setembro de 2017

O PENSAMENTO TORPE EMBRUTECE O JUÍZO

Por esses dias houve um caso polêmico envolvendo a representante Disney em Paris, do menino Noah, de três anos de idade, querer ir à festa de princesas Disney vestido de Elsa(personagem principal da Frozen). A Disney a princípio se recusou a permitir a participação da criança, ao menos vestida daquele jeito. O resultado foi uma série de debates imbecis no Facebook, acusando a mãe da criança de "ideologia de gênero", "iluminati", "Nova Ordem Mundial", "Marxismo Cultural", etc. Ficou uma babel guerrilheira, sem a mínima necessidade. É uma criança, e o povo preocupado com influências, que nem existem.

Passados uns dois dias, a Disney se desculpou, como se fizesse algo grave(não fez, pois a empresa tem regras). Porém, como toda empresa quer lucro, e teme boicotes, que se tornaram comuns, voltaram atrás. Desse ponto em diante que faltou acusarem a Disney de parceira do Anticristo. Esse povo está louco. É uma criança de três anos, não um debate trans/gay na internet. Pior ainda quando se fala em "fazer as vontades da criança", como se isso fosse algo ilegal. Não é homossexualidade, pois não existe criança homossexual. Isto remete a pessoas que possuem relações com o mesmo sexo. Nem desejo pelo mesmo sexo é homossexualidade. Não é transexualidade, pois a criança(por enquanto) não reconhece isso. Se os pais fossem cristãos, o que inclui mudança de vida(por isso que não existe país cristão), podem "ensinar a criança no caminho que deve andar"(Pv 22:6). Mas pais impios tentarem "evitar pecado no filho"(se é que essa estupidez existe), é sacrificio de tolo. Nós somos o "sal da terra e a luz do mundo"(Mt 5:13-16) para convidar os moradores desse para morar no céu, não para consertar esse mundo. Somos embaixadores de nossa pátria celeste(Fp 3:20). Que o menino Noah tenha liberdade de brincar, e não sejamos responsaveis por nenhuma estupidez. Se ele aceitar a Jesus mais tarde, terá o Espirito Santo nele, e sofrerá modificações naturalmente.

'Todas as coisas são puras para os puros. Mas nada é puro para os corrompidos e descrentes. Antes a sua mente, como sua consciência, estão contaminadas.' Tito 1:15

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terça-feira, 11 de julho de 2017

LIMBUS PATRUM - O QUE É ISSO?

O termo é uma expressão em latim que significa 'orla paterna'. Seria uma localidade entre o céu e o inferno, reservado aos justos do Antigo Testamento que teriam que ali esperar a redenção de Jesus. Nesse lugar, não havia "aperfeiçoamento" como no purgatório, mas apenas espera. Embora a doutrina do purgatório surgiria dele.

Durante boa parte da Idade Média se creu numa ideia, por demais grotesca, de que Jesus teria descido ao Hades no ato de sua morte, e pregado ao povo do Antigo Testamento, que morreram sem ouvir falar da graça. E também não haviam sido batizados, permanecendo com o "pecado original". Este último termo, nem na bíblia tem, mas foi invenção de Agostinho de Hipona. Bispo africano do século V. A ideia era que a redenção dos santos do AT não tinha sido completa. Afinal, sem a morte de Cristo, e a ciência dela, ninguém poderia ser salvo. Assim pensavam os cristãos gnósticos do século II. Isso possui sustentabilidade bíblica? Claro que não! Uma passagem bastante usada pra isso é a de I Pe 3:18-22. Mas, se lermos o texto completo, veremos realmente do que se trata. A nossa salvação e o sacrifício de Cristo foram feitos antes do nosso tempo. Não dependem dessa esfera aqui(Ef 1:3-10)(Ap 13:8).

E fora da bíblia, essa ideia surgiu de onde? Esse 'entendimento' da passagem de Pedro veio de um certo 'Evangelho Apócrifo de Nicodemus', escrito no final do século II, cuja redação final veio do século V. É um livro de 11 capítulos que se diz ter sido escrita pelas pessoas que ressurgiram com Cristo(Mt 27:51-53). Nesse livro, Satanás dialoga com os demônios, e pede que mantenham Jesus preso, assim que este entrar em seus domínios. E o demônios lembram que, recentemente, haviam perdido um certo Lázaro. No fim, Jesus vence e acorrenta-o para ficar assim até a sua volta.

Para aqueles que conhecem história, e até mitologia, isso se parece muito com a cultura e mitologia gregas. Parece a batalha entre Zeus e Hades, com a derrota deste. Acrescentando que o inferno não é casa do diabo, é a prisão do diabo. E não são demônios os responsáveis pelo tormento infernal, pois estes também são atormentados. Essa crença em um "satanás atormentador" não vem da bíblia, mas da obra "A Divina Comédia", de Dante Alighieri. E até dos quadros de Giotto, no seculo XIV. Resumindo, tudo fantasia mitológica de muitos escritos na História. Na própria biblia é que isso não se baseia.

Para ilustrar essa história bizarra, uma tela de Vittore Carpaccio - 'A morte de Cristo'(1520)

A fome do século XIV

Nesses anos de 2015 até 2017 a Europa lembra da grande fome que foi causada por invernos rigorosos, de 1316 para 1317,há 700 anos atrás. Se sabe que a desigualdade foi também causada pelas contradições do regime feudal. E o país mais atingido foi a França. Talvez convenha falar dos principados do Leste Europeu,mas esses já estavam na pior desde as invasões mongóis do século XIII. Talvez a única exceção europeia fosse a Córdova muçulmana. Pelas linhas de igualdade que defendiam, talvez isso lá fosse mais raro.

A França estava presa na maldição dos templários,desde a execução de Jacques de Molay em 1314. O rei Filipe IV estava morto, e 24 cavaleiros,carregando as armas da França,percorreram o país para dar a notícia. Atravessaram o solo juncado de neve,e com uma eclipse que ocorreu na morte do rei, para anunciar que o rei de ferro estava morto.Para o homem medieval,essas coisas eram suficientes para consternar imaginações. O rei Luis X,filho do precedente, não conseguiu aplacar a briga entre a antiga nobreza e os novos burgueses. Os lobos se entredevoravam. O clã baronial venceu,ao menos temporariamente. A hora do conde Roberto III D'Artois, e do conde de Valois, ainda chegaria. Enquanto isso,o esqueleto de Enguerrand de Marigny,chefe dos novos burgueses,secava nos ganchos do cadafalso de Montfaucon. De repente, a morte do novo rei Luis X,provocou uma corrida ao trono. O seu tio reivindicava o trono,mas Filipe V,que era irmão do falecido,e sobrinho do concorrente,foi que o conseguiu. Com um detalhe:Nenhum dos pares do reino(Duque de Borgonha, Duque da Normandia, Duque de Guyenne, Conde de Compiegne, Conde de Flandres e o Conde de Toulouse)possuidores ou hereditários,estavam presentes em sua coroação. De repente,a França foi tomada de um estado de demência. Um conclave papal feito na prisão, um castelo real tomado de assalto, um grande senhor feudal é atirado no calabouço, camponeses revoltam-se, leprosos tomam conta do país e judeus são assassinados em várias partes da Europa.

No começo do século XIV,a França é o mais poderoso reino da Europa, cujas intervenções são temidas,e os juízos respeitados. De repente, entra na Guerra do Cem Anos(1337-1453),e leva surra após surra dos ingleses,junto aos traidores borgonheses. O que aconteceu com a França, quarenta anos depois,para que fosse esmagada por uma nação cinco vezes mais numerosa?Muitas especulações aparecem...

Na batalhe de Ecluse(1340),o capitão genovês Barbavera avisou ao almirante francês para que passasse os seus navios ao mar aberto, de forma a não ser encurralado pelos ingleses. O almirante se recusou. À noite a França dava adeus ao domínio dos mares. Quando o rei Filipe IV instituia impostos pelos quais era criticado, ele o fazia para por a França em ordem. Quando Filipe VI exigia taxas mais altas ainda, era para pagar o preço de suas derrotas. A Guerra dos Cem Anos foi um debate judiciário entrecortado de apelo às armas. E a fome, dos anos 1315-1317 foi a causa, parcial, de tudo isso. Mas a causa humana sempre superou as outras...

Do Apocalipse na Biblia Pauperum iluminado em Erfurt em torno da época da Grande Fome. A morte situa-se ao lado de um leão cuja longa cauda termina em um caldeirão flamejante (Inferno). A fome aponta para sua boca faminta.

CRISTÃOS DEVEM SER PATRIOTAS?

Antes de responder a essa questão, veremos os significados de 'pátria' e 'nação', segundo o Houaiss. A Pátria é o território ocupado, e o chão que pisamos. E nação são as pessoas que habitam aquela pátria, e possuem os mesmos usos e costumes. Mas qual a diferença entre o planeta terra, que Deus fala a ele pertencer em Sl 24:1-2, e essa 'coisa' chamada pátria que delimita fronteiras? Tem Deus compromisso com isso? No AT Deus dá um território ao seu povo escolhido, faz chamar de a 'terra que o Senhor teu Deus ti dá'(que muitos cristãos associam erroneamente à vida longa). Portanto, quem originou esse significado, pela primeira vez no mundo, foi Israel. Por isso a passagem de Sl 33:12 pode ser entendida como "bem aventurado o grupo de pessoas cujo Deus é o Senhor", mas jamais "Bem aventurado é o país cujo Deus é o Senhor". Um erro de proporções grosseiras.

No mundo antigo, até por socializações com Israel, que os impérios babilônico, persa, grego e romano passaram a ter essa noção(somente uma noção) do que viria a ser pátria. No mesmo período, na China da dinastia Han, as pessoas de lá nem faziam ideia do que era isso. Na Idade Média só importavam os ritos de vassalagem, e uma pessoa só tinha dívidas com seu suserano, e com a Igreja. Se outro suserano dominasse sobre o primeiro, ela passava a vassalagem, ou a servidão no caso dos camponeses, ao segundo. Um habitante da Normandia, hoje localizado em território francês, era um súdito do Rei da Inglaterra. Nem era 'cidadão inglês', pois essa noção nem tinha sombras de existência, como alegam hoje os filmes de Hollywood. Na Idade Moderna começa a brotar, pela primeira vez na História, a noção de Estado-Nação. Por quê? Para fazer frente ao poder internacional do Vaticano. Nessa hora entra uma força de destaque: A Reforma Protestante!!!! Ela chegou aliando-se aos ideais de Estado-Nação. Mesmo assim, o que tínhamos? Um imperador do Sacro Império Romano, como Carlos V, governava súditos falantes de catalão, basco, castelhano, náhuatl, alemão, quíchua e italiano. Por isso, já dizia Voltaire sobre o Sacro Império Romano:Nem sacro,nem império,nem romano. As primeiras identidades de um homem do século XVI dizem respeito ao seu soberano, e sua religião. Se parece complicado a nós, é porque nossa cabeça funciona de maneira mais complexa que um homem renascentista. O Tratado de Tordesilhas, por exemplo, não foi disputa entre duas nações, mas entre duas monarquias. Mas não seria a mesma coisa? Não!!! Os séculos XV e XVI não seguiam nossa linha de pensamento.

A história dos símbolos nacionais remonta a uma origem ainda mais obscura: O extremo oriente. As bandeiras nacionais vieram dos brasões, da chamada Heráldica. Essa invenção, que não é europeia, mas turca, e repassada na época das cruzadas; pode encontrar suas origens nas fronteiras da China, à beira do Turcomenistão. Afinal, turcos não são parentes de árabes, mas de chineses. Os tunguzes e turcos se inspiraram na China Han, que lutavam suas batalhas em estandartes coloridos, pertencentes às mais variadas dinastias. Portanto, quando nós achamos lindo, patriótico e divino as reverências à bandeira nacional, cometemos um erro. Pode ser lindo e patriótico,mas com certeza não é divino. Tomás de Aquino escreveu, em sua 'Suma Teológica', que era permitido revoltar-se, ou matar um tirano. Fazendo isso, ele dava corda para os anabatistas mais tarde. Não tem jeito, não dá para haver dois pesos, e duas medidas. Se vale numa questão, abre brecha para tudo. Para se ver como a escolástica foi imbecil.

Textos como Rm 13:1-7 ou 1 Pe 2:11-17 foram escritos com o propósito de dissuadir muitos cristãos de revoltar-se contra Roma. Patriotismo carnal revoltado já bastavam os zelotes. Ficou mais do que provado que isso sempre daria errado. O sentido do que é ou não pecado não pode ser ditado pelas diretrizes do Estado. A desobediência(ou obediência) ao Estado acarretam somente consequências terrestres, mas assumir sua causa pode fazer perder nossa coroa. Cristão pode ser patriota? Pode. Mas fique sabendo que isso não é divino, e nem suas consequências serão...

"Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir." Hb 13:14

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Condrictes: Quem são?

Na escala evolutiva da terra, muitos seres vivos não foram tão beneficiados. Alguns carregam características, que os fazem escravos de determinadas coisas, até hoje. Carl Von Linné(1707-1778), que fez a primeira classificação taxionômica da História,não previu várias espécies e subespécies. Assim como classificava como 'peixe' qualquer ser aquático. Hoje vemos que não é assim. Baleias e golfinhos, por exemplo, são mamíferos. Tem respirações pulmonadas.

Esse é o caso dos condrictes. Peixes cartilaginosos, como tubarões, raias e quimeras, que não possuem opérculos e bexigas natatórias. Opérculos são espécie de nadadeiras que empurram a água para dentro das brânquias(guelras)para entrada de oxigênio para a respiração. O seres aquáticos não respiram o oxigênio retirado da molécula da água(H2O),mas do O2 dissolvido na água. Por isso o aquecimento global é perigoso, pois retira o ar dos bichinhos para sua respiração. Gases dissolvidos em líquidos não mantém sua solubilidade em alta temperatura. Nesse caso, os gases vão para atmosfera.

Voltando aos opérculos, os condrictes não os possuindo, tem sempre que se mover na água, senão morrem por asfixia. Por isso que, não só raias e quimeras,mas tubarões vivem com fome. Tubarão não dorme, em todos os dias de sua vida. É nadando dia e noite sem parar. Raias e quimeras, também. Existem algumas cavernas submarinas em algumas partes do planeta, que tem águas rotacionais. O que permite aos condrictes ficarem parados. Mas são raras.

E as bexigas natatórias? Essas são bolsas de ar dentro de vários peixes, que os condrictes também não têm, que os mantêm flutuando parados na água, pois regula pressão. Traduzindo, se os condrictes parassem na água, não só morreriam asfixiados, como iriam direto para o fundo do mar.

O grande tubarão branco, Condricte da ordem dos Lamniformes

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Muntzer, a alma do anabatismo

Thomas Muntzer(1489-1525) estudou tanto em Leipzig, como em Brandenburgo. Chefiou a Guerra dos Camponeses,ao qual Lutero chamou de 'Revolta Maldita'. Guiou os camponeses sob a bandeira da revolta imperial. E essa bandeira era semelhante à bandeira LGBT de hoje,sendo que só tinha 5 cores. Era caçado,tanto por católicos como por luteranos. Começou sua vida de pregador através de Martinho Lutero. Mas depois, considerando todo patriotismo como maldito,separou-se dos luteranos. Reunía-se com seus discípulos na floresta negra,ao sul da Saxônia.Os revoltosos baseavam-se na Bíblia para afirmar que os camponeses nasceram livres, e reivindicavam a livre escolha dos líderes espirituais, a abolição da servidão, a diminuição dos impostos sobre a terra, e a liberdade para caçar nas florestas pertencentes à nobreza. Lutero condenou o movimento dos camponeses, apoiando os príncipes e nobres. Houve uma batalha dos senhores feudais contra os anabatistas. A batalha foi em Frankenhausen,onde os anabatistas foram derrotados,e Muntzer foi decapitado.

Para entendermos a História, por que eram caçados? No século XVI não havia censos de IBGE como há hoje. Então, a única maneira de contar a população era pelos batismos. Dessa maneira,podia-se contar tanto os impostos a cobrar, como camponeses prontos a lutar pra uma guerra. Acontece que Muntzer pregava batismos somente em adultos. E isso complicou o cenário. O exército de Suleimã,o turco, estava invadindo a Europa. E o imperador precisava de soldados(e dinheiro)para a guerra. Martinho Lutero chamava os turcos de 'exército do anticristo',e dizia que os anabatistas eram culpados pelo fracasso das tropas imperiais. Muitos anabatistas fugiram para o leste da Hungria após a morte de Muntzer. Foram bem tratados pelos príncipes islâmicos vassalos de Suleimã. Tanto que na invasão à Viena por parte dos turcos,em 1683, o chefe da invasão era um príncipe protestante húngaro. Os anabatistas logo foram acusados de conivência com os islâmicos. As interpretações dos fatos eram confusas,pois a maioria do povo era analfabeto.

Séculos depois, temos estátuas de Thomas Muntzer por toda Alemanha, principalmente na parte que foi a Alemanha Oriental(comunista) no passado. A foto dele foi usada na nota de 5 marcos em 1975,na então República Democrática Alemã. Foi,sem dúvida, um herói nacional, ao empenhar sua luta contra uma Igreja Estatal.

"E outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões.Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados(Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra."Hebreus 11:36-38

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Agora D. Pedro é morto...

Neste dia 18 de Janeiro fez 650 anos da morte do rei D. Pedro I de Portugal. Obviamente não é o NOSSO D. Pedro I, pois este foi D. Pedro IV de Portugal. Falo aqui do Príncipe D. Pedro de Borgonha, marido de D. Inês de Castro, personagem controversa da Idade Média, e literatura portuguesa, do qual saiu a frase "Agora Inês é morta". Aquela que o escritor Luís Vaz de Camões menciona como "a mísera e mesquinha, que depois de morta foi rainha".

Inês era descendente, assim como Pedro, do rei Sancho II de Castela. Ele por linha materna, e ela por linha paterna, além de detalhes de bastardia. O rei Sancho tinha uma esposa, chamada D. Maria de Molina, do qual Pedro descendia. E uma amante, chamada Maria Afonso Ucero, do qual descendia Inês. Esse pequeno detalhe, além de outras bastardias pelo caminho, deixou a família Castro tanto fora da sucessão de Castela, como de Portugal. Resumidamente, Pedro e Inês eram primos. Nos reinos ibéricos havia mais laços de parentesco do que as monarquias anglo-francesas da mesma época.

O rei de Portugal era um homem severo chamado Afonso IV, e arrumou um casamento para o filho Pedro, por questões políticas. Seria a princesa D. Constança, da linhagem real castelhana. Esta veio a Portugal acompanhada de um séquito de damas, entre as quais figurava D. Inês de Castro. Era bonita, chamou a atenção da corte lusitana, além de Pedro, é claro. E ocorre mais um fato curioso. Tanto D. Pedro, como D. Inês ou D. Constança eram descendentes do rei D. Fernando III de Castela. Estava tudo em família. Nada havia que fosse estranho a ninguém.

Com o tempo, passou a haver reuniões secretas entre Pedro e Inês. O rei ficou sabendo, e desportou Inês de volta à sua terra, em 1344. No ano seguinte, nasce o primeiro filho do Príncipe com D. Constança. Era Fernando, que seria o próximo rei de Portugal: D. Fernando I. Apenas ocorreu um imprevisto. D. Constança morreu no parto. No ano seguinte, Pedro traz Inês de volta do exílio. Esse ato iria desencadear efeitos sobre Portugal por séculos. Dali até 1353 nasceram todos os filhos de Pedro e Inês. Em 1354 Pedro se casa com Inês, com aval do Bispo de Coimbra. Não havia casamento religioso na época. Isso só surgiria cerca de 200 anos depois. Mas um Bispo poderia dar seu aval. Porém essa união de Pedro e Inês não foi reconhecida pelo papa Inocêncio VI, por sua carta "Nuper per certos", escrita a pedido do rei de Castela, já em 1361, após a morte de Inês.

Em 1355 ocorre o inesperado. O rei Afonso IV, apoiado por seus cavaleiros Álvaro Gonçalves, Pero Coelho e Diogo Lopes Pacheco, assassinaram Inês de Castro em Coimbra. Pedro estava ausente. Quando descobriu, se aliou aos irmãos de Inês, e à família Castro, e revoltou-se contra o pai. Ele e seu exército fizeram todos os roubos e saques que podiam em todo país. Afonso IV ficou boquiaberto. Nem as igrejas eram poupadas. Não tinham como ser pegos. Agiam como bandidos. Quando o país estava próximo de um colapso, a rainha mãe intervém para fazer a paz entre pai e filho. É feito um acordo de paz entre pai e filho. Ambos renunciam as suas vinganças. Isso ocorreu no burgo de Canaveses, em 1355, no mesmo ano da revolta.

Dois anos depois ocorrem duas coisas que mudariam o cenário do Reino de Portugal. Morre o rei Afonso IV, e Pedro assume como Pedro I. E nasce outro filho bastardo de Pedro, João. Este era filho de sua amante D. Teresa Lourenço, que fazia parte do séquito de damas de D. Inês de Castro, quando esta já estava casada com Pedro. Este João seria o futuro 'Mestre de Avis', que assumiria como D. João I o trono de Portugal, após a Revolução de Avis. Muitas coisas ainda iriam acontecer.

Com o trono assumido, Pedro quebra o acordo de Canaveses, e vai atrás dos assassinos de Inês. Diogo Lopes Pacheco consegue fugir, e obter exílio perante o rei de Castela. Mas os outros dois são capturados, e tem um castigo meio bárbaro. Eles têm seus corações arrancados. Um pelo peito, e o outro pelas costas. Após isso, Pedro pede ao papa a legitimidade do seu casamento com Inês de Castro. É negado, inclusive por causa da intervenção de Castela. É bom lembrar que os papas dessa epoca são franceses, e tem sua sede em Avinhon. E Castela era aliada da França na Guerra dos Cem Anos(1337-1453). Se tratava da segunda guerra dos cem anos. A primeira Guerra dos Cem Anos, entre França e Inglaterra, ocorreu entre 1152 e 1259, e terminou no Tratado de Paris(1259). Esta guerra anterior não tinha a coroa da França como objetivo, mas disputas em torno do ducado da Aquitânia.

Voltando a Pedro, o próprio Arcebispo de Braga, autoridade suprema do país, comparou Inês de Castro com Hagar, concubina de Abraão, na biblia. E seus filhos comparou a Ismael, filho de Hagar. Essa comparação também pesou nas decisões do papa. Resultado, em 1361 Pedro teve seu casamento negado. Não viveria muito depois disso. Sua morte ocorreu em 1367, e foi sepultado no mosteiro real de Alcobaça, em Coimbra, onde eram enterrados os monarcas portugueses. Seu túmulo tem 32 escudos de linhagem real. Porém o de Inês tem 44 escudos, entre os quais os da família Castro. Os corpos de ambos estão lá. E não estão lado a lado, mas frente a frente, pois Pedro disse que queria levantar de frente a ela na ressureição do juízo final.

Em 1383, morre o filho de D. Pedro I, o rei D. Fernando I. Este deixava somente uma filha, D. Beatriz, e casada com o rei de Castela. O Reino de Portugal seria incorporado. Os nobres aceitaram, mas os burgueses se uniram em torno de D. João, o Mestre de Avis. D. João, o Duque de Valência, e filho de Inês de Castro, também queria suceder, mas a carta papal, invalidando o casamento de sua mãe, o impedia. Então ele passou a apoiar o Mestre de Avis. Tudo foi decidido na Batalha de Aljubarrota(1385), no qual se destacou o condestavel Nuno Álvares Pereira. Eu vi uma vez a espada do condestavel, quando a exposição veio ao Brasil. Tem um tamanho colossal. D. João assume como D. João I, e Portugal entra numa era de glórias.

Após 650 anos da morte do rei D. Pedro I, ficam várias dúvidas. Foi a morte de D. Constança uma morte provocada, ou foi de parto como atestam os documentos? D. Teresa Lourenço foi amante enquanto D. Inês vivia, numa espécie de 'colheita'? Não sabemos. Em todo caso, os atos de Pedro mudariam para sempre a História de Portugal. Entre os descendentes de Inês de Castro estão figuras ilustres como D. Manuel I de Portugal e Maximiliano I, imperador habsburgo da Áustria. Os descendentes de Inês deixaram muitos rastros pela Europa. Sobre o túmulo de ambos, é sabido que há uma inscrição no de Pedro, dizendo que ambos estariam juntos "até o fim do mundo"...