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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Vlad III - A sangria no leste europeu

Neste dia 14 de dezembro faz 540 anos que morreu Vlad III, o Empalador. Também conhecido como Vlad Drácula. Aquele que povoou a imaginação do escritor irlandês Bram Stoker. A história do príncipe Vlad, voivoda da Valáquia, está intimamente ligada à queda da cidade de Constantinopla para o Império Otomano,em 1453. Sua história, assim como a lenda que o seguiu, começa na cidade de Sighisoara, no principado da Transilvânia. Ali,em 1431, nasceu Vlad Drácula, conhecido como 'filho do Dragão'. A fama de empalador vinha do modo como matava suas vítimas. Estas eram amarradas, e estacas não muito afiadas eram cobertas com óleo, e em seguida introduzidas em seus corpos(abdômem, ânus ou no estômago), em seguida puxadas por cavalos,até que saíssem pela boca. Uma vez, cerca de 20 mil mercadores e boiardos de Brasov foram empalados na Transilvânia, em qua as árvores foram cortadas exclusivamente pra isso. Desde o século XIV, tanto a Valáquia, como Transilvânia, eram províncias dos Bálcãs,que ora eram vassalos da Hungria, ora do Império Otomano. Os principados dos Bálcãs tinham que se equilibrar entre esses dois poderes. Ao contrário do que se pensa, Vlad não era príncipe da Transilvânia, mas da Valáquia. Vlad nasceu na Transilvânia porque nasceu no período que seu pai, Vlad II, estava no exílio. A Transilvânia ainda era um principado agregado ao reino húngaro. Portanto,se fosse hoje, Vlad III teria nacionalidade húngara.

O nome de Vlad deriva do pai, que por sua vez, deriva do avô. Que por sua vez deriva de um general traidor(mais embaixo falo sobre isso). O codinome 'Drácula', ou 'Draculea', já tem uma origem diferente. O pai de Vlad fazia parte da Ordem do Dragão(uma ordem de cavalaria alemã), e acrescentou o codino DRACUL(O dragão) ao seu nome. Vlad III, ao entrar para ordem, colocou DRACULEA(o filho do Dragão). Esses termos vem do moldávio antigo, das raízes dos idiomas eslavos.

A fundação da Valáquia passa pelas origens do reino húngaro,no século X. A invasão da Hungria,pelos mongóis, em 1241,possibilitou o enfraquecimento do reino,e a independência dos principados dependentes do mesmo, como Valáquia e,mais tarde, Transilvânia. Todo o leste europeu foi devastado pelos mongóis,fato que explica seu atraso até hoje. Não vem do socialismo,como em geral se pensa. Pelo contrário. Foi por serem frágeis que se tornaram presas fáceis da onda vermelha soviética. Em 1301 cai a dinastia Árpád, na Hungria. Nasce a Hungria angevina, com parentela francesa. Foi daí que principados como Valáquia e Sérvia aproveitaram para emancipar-se. A Valáquia surgiu,como principado independente,em 1310. Surgiu com o clã dos Basarab. Desde então, este clã manteve uma certa independência em relação ao reino húngaro, formando o principado valaquiano. Mas uma nova força vinha avançando pelos Bálcãs, e ameaçando tanto o império Bizantino, como todo o leste europeu. Eram os turcos otomanos. Uma dinastia turca fundada por Osman. Vinham do Turquestão Ocidental. Por isso que turcos são parentes dos chineses,não dos árabes. Então, o Sacro Império Romano-Germânico resolveu criar, em 1408, uma ordem de cavalaria,chamada Ordem do Dragão. Tinha o objetivo de conter a ameaça turca na Europa. O imperador Sigismundo de Luxemburgo criou tal ordem, da qual faziam parte vários príncipes e nobres da Europa. Alguns membros fundadores foram Stefan Lazarević, da Sérvia e Hermann de Celje, sogro do imperador, e conde da Estíria. Outros membros notáveis eram Alfonso V de Aragão, Fernando I de Nápoles, Vlad II Dracul e,claro, Vlad III Draculea.

Na região da Dácia,onde hoje fica a atual Romênia(só criada no século XIX), surgem os principados valaquiano, transilvano e moldávio. Os dois primeiros vassalos da Hungria,e o último do ducado polonês. A Polônia só se tornaria um reino,separado do Sacro Império, no século XII. Não existiam, nesses territórios, os títulos de nobreza que conhecemos como duque,conde e marquês. A sucessão do chefe do principado, o Voivoda, era eletiva. Não era hereditária,como na Europa Ocidental. Um grupo de nobres, chamados boiardos, decidiam em assembleia qual sucessor do voivoda herdaria seu trono. Quando chegou o início do século XIV, o principado da Valáquia se tornou independente da Hungria. Na segunda metade do século, os valaquianos adotaram a crença ortodoxa, por influência do Império Bizantino. Isso em contrapartida com a Polônia e a Hungria, que eram católicas.

Se aproximando o fim do século XIV, um novo inimigo se aproximava dos Bálcãs: Os turcos otomanos. Vieram a cavalo do Mar de Aral, destruindo os reinos islâmicos por onde passava. Finalmente eles próprios se tornaram muçulmanos. Nessa época, o sultão Bayezid, conhecido como 'o relâmpago', foi tomando parte após parte do Império Bizantino. Isso deixou os principados eslavos em alerta, assim como os reinos búlgaro, sérvio, húngaro e polonês. Nessa época, o avô de Vlad III, príncipe Mircea, sentava no trono valaquiano. Havia traidores europeus que muitas vezes passavam para o lado dos turcos. Um desses era um general de confiança de Mircea: Chamava-se Vlad(mais tarde chamado de Vlad,o usurpador). Foi devido a esse general,e sua confiança nele, que Mircea colocou o nome em seu filho Vlad, mais tarde Vlad II. O general Vlad assumiu o trono valaquiano como Vlad I, após a Batalha de Rovine(1394). Mas isso durou pouco. Logo o principe Mircea recuperou o trono, e Vlad I seria expulso. Morreria pouco depois. Após isso, Mircea se recusou a pagar as taxas que o sultão otomano exigia. E não exigia só isso. Exigia 500 garotos europeus, para formar o exército de janízaros. Os janízaros eram o exército de elite do sultão, composto por 10.000 soldados, retirados dentre os meninos dos Bálcãs. Esses meninos eram islamizados, treinados e armados como o melhor do exército otomano. O sultão começou a avançar sobre os principados dos Bálcãs. Foi preparada uma cruzada, com ajuda dos reinos cristãos do oeste da Europa. A Cruzada de Nicopolis(1396) foi um desastre. Os otomanos estavam muito mais bem preparados,e os europeus se traíam uns aos outros. Soldados valaquianos roubavam soldados franceses pelo caminho. Húngaros torturavam turcos e sérvios ao mesmo tempo. Enfim, a batalha foi uma zona só.

Muitas das vezes os países se beneficiam dos inimigos dos seus inimigos. Uma coisa pôs um freio no avanço otomano. Em 1402 o exército otomano era arrasado por um inimigo maior. Os mongóis. O exército de Tamerlão, que vinha arrasando tudo pelo caminho, derrotou os turcos,aprisionou Bayezid, e deu um descanso para os principados europeus. Mas ocorreu que os turcos foram libertados por seus futuros inimigos. Galeras venezianas libertaram prisioneiros turcos,e os ajudaram a se recompor da derrota. Essa ajuda ainda sairia caro. Se Tamerlão não tivesse derrotado o Império Otomano, Constantinopla não teria caído em 1453, mas ainda nos tempos do sultão Bayezid. Os últimos anos do principado de Mircea I foram de 'corda bamba' entre os poderes otomano e húngaro, princialmente o primeiro.

Em 1436 o príncipe Vlad II, pai de Vlad, retorna do exílio da transilvânia, e retoma o trono valaquiano de um príncipe do clã danesti. Daí para frente Vlad III moraria no seu principado: A Valáquia. Em 1439 tem lugar na Europa o Concilio de Ferrara-Florença, em que os ortodoxos pedem ajuda aos europeus em geral para impedir o avanço turco. O Cardeal Júlio Cesarini encabeçava a Cruzada. Ela seria em Varna, na Bulgária, à beira do Mar Negro. Os resultados da Batalha de Varna(1444) são conhecidos. O exército cristão foi massacrado. O rei Ladislau da Hungria havia firmado um tratado de paz com o sultão Murad II, dos turcos. Mas o cardeal Cesarini o fez voltar atrás, alegando que “uma palavra dada a um infiel não vale”. Após a derrota, os janízaros exibiram a cabeça do rei Ladislau numa lança, e na outra lança o tratado de paz do rei. E chamavam o rei de perjuro.

Antes da Batalha de Varna, o príncipe Vlad II enviou os seus dois filhos caçulas, Vlad e Radu, aos turcos, como sinal de sua fidelidade. Se absteve de ir à batalha,e enviou seu filho mais velho, Mircea. Sua ideia era do sultão não maltratar seus filhos, se ele em pessoa não se juntasse à cruzada. Mas isso desagradou aos húngaros, e ao chefe do seu exército. O comandante dos exércitos húngaros era um príncipe cruel, que até o sultão tinha medo,chamado John Hunyadi, chefe dos chamados 'cavaleiros brancos da Hungria'. Este príncipe acusou Vlad II e seu filho de covardia na Batalha de Varna. Após a batalha, Vlad II e seu filho Mircea foram mortos por ordem de Hunyadi. Provavelmente enterrados vivos. Enquanto isso, Vlad e Radu ficaram no acampamento turco. Vlad passou maus bocados nas mãos dos turcos, já que seu pai e irmão foram mortos pelos húngaros. Enquanto isso, John Hunyadi colocava o seu fantoche, Vladislav II, no trono valaquiano.

Em 1448 os turcos libertam Vlad, enquanto Radu seria mantido para a tropa dos janízaros. Neste ano Vlad tomaria o trono valaquiano do seu oponente, usando suporte turco. Mas isso durou pouco. Dois meses depois, Vladislav retomava o trono com ajuda do exército de Hunyadi. Vlad ficaria no exílio na Moldávia por três anos. Quando passaram três anos, Hunyadi chama Vlad do exílio, porque seu fantoche ficou rebelde. Vlad jura lealdade à Hungria, e ele e Hunyadi, juntos, invadem a Valáquia e a Sérvia, respectivamente. Hunyadi perde a batalha contra os turcos,e é morto nela. Vlad vence na Valáquia,e retoma o trono em 1456. Mata seu oponente, e instala o terror no principado. Todas as lendas referentes a Vlad Drácula estão contidas nesse período, que vai de 1456 até 1462. Uma delas diz respeito a um cálice de ouro, que o príncipe teria colocado em praça pública, para a população beber água da fonte na praça. O medo das consequências era tanto que o cálice nunca foi roubado. A maioria dessas lendas teria origem russa ou turca, dependendo do fato.

Em 1462 os turcos atacam a Valáquia pela rebeldia de Vlad em não pagar os impostos, e recusar o envio de garotos para o exército de janízaros. Dizem que a esposa de Vlad se atirou do alto do castelo,para não ser prisioneira dos turcos. Vlad é obrigado a fugir para a Hungria, onde Mathias Hunyadi, ou Matias Corvino, filho de John Hunyadi, é agora o rei da Hungria. Chegando em Budapeste, Vlad é aprisionado por ser acusado de traição. Fica na prisão por cerca de 12 anos. Alguns documentos falam que somente até 1466, onde se casa com a irmã do rei, renega a crença ortodoxa, abraçando o catolicismo romano. O casamento foi um acordo para retomar o trono valaquiano. Em troca de sua 'conversão' e casamento, o papa e a Hungria enviam-lhe dinheiro e armas para recuperar seu principado. Durante todo o período que Vlad esteve na Hungria, seu irmão Radu foi príncipe da Valáquia, como fantoche turco.

Em 1474 Vlad começa seus preparativos para retomar seu trono. Reuniu tropas na Transilvânia, e até na Moldávia, do seu primo Stephan Bathory, para retomar o trono. Em 1476 Vlad marcha com seus aliados em direção a Valáquia. Seu irmão Radu já era morto,e foi substituído por pelo príncipe Basarab, do clã danesti. Vlad expulsou Basarab, e retomou o trono. Mas, após a vitória, seus aliados retiraram suas tropas, deixando sua posição enfraquecida. No mesmo ano os turcos invadem a Valáquia, vencendo Vlad numa batalha perto de Bucareste. A cabeça de Vlad foi cortada,e enviada ao sultão, e exposta em Constantinopla, como prova de que o empalador estava morto. Seu corpo foi enterrado no Monastério de Snagov.

Ainda hoje, as lendas de Vlad Drácula que chegaram até nós vieram,em sua maior parte, da Rússia e da Turquia. Foi de lá que o escritor Bram Stoker retirou seus dados. Foi Vlad que fundou a cidade de Bucareste, hoje capital romena. O castelo de Vlad, ao qual os filmes de vampiro tanto se referem, é o castelo Poenari, às margens do rio Arges. Não é o castelo de Bran, como muito se pensa. Até hoje sua história é distorcida em filmes de vampiros.

A Romênia que hoje conhecemos só surgiu no século XIX, como resultado da união entre Valáquia e Transilvânia. Isso foi após a Guerra da Crimeia, onde o império turco perdeu vários territórios. As lendas sobre Vlad surgiram na Rússia e Turquia por motivos diferentes. Na Turquia porque os turcos muçulmanos tentaram manchar seu nome, alegando que eram derrotados por um 'ser sobrenatural'. E na Rússia pelo ressentimento que ficaram em relação a Vlad, por este ter abandonado a ortodoxia, e abraçado o catolicismo. Em 1931 arqueólogos abriram a tumba de Vlad III, e encontraram apenas ossos de animais. Na Romênia atual, Vlad é hoje lembrado como salvador de seu país. E muitos rezam pelo seu retorno.

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